De casa para o mundo

POR Augusto César Maia 24/10/2016

As relações iniciais da vida com nossos pais determinam a forma como construímos nossa vida e nossa escala de valores.

Recentes pesquisas apontam a ausência dos pais (mãe e pai) como causa do aumento dos transtornos de personalidade entre a população em geral. Essas pesquisas mostram que nos últimos anos houve significativo aumento do número de divórcios, problemas de violência e prostituição infantil.

O contato dos pais com os filhos ficou escasso e menos intenso, por causa do estresse e das exigências sociais da vida moderna. Sem falar do isolamento das crianças criadas em creches ou que foram parar nas mãos das babás, TV e videogame. Longe de favorecer a aproximação dos membros da família, nossa sociedade faz o contrário: dificulta cada vez mais a possibilidade do convívio, bem como o estabelecimento de relações significativas, profundas e duradouras.

As pessoas que devem cuidar das crianças encontram-se trabalhando, ou seja, longe desse contato necessário. O pai já está fora do lar há muito tempo (só trabalha ou está separado da família), como mostram as pesquisas. A mulher entrou no mercado de trabalho com força total, pois teve que aprender a tocar a família sozinha ou ajudar o companheiro que se ressente e não colabora com a mudança. Isso fez com que o relacionamento entre marido e mulher ficasse mais voltado para a competição do que para a proposta de companheirismo e cumplicidade.

O fundamento de tudo

Os valores familiares mudaram, e isso trouxe uma infinidade de novos paradigmas para o ser humano. Porém, um paradigma não mudou: a formação da personalidade do indivíduo como fruto de uma relação com a família, que é o primeiro grupo de valor significativo para o ser humano. É nela, sob orientação segura dos pais, mais especialmente com os seus exemplos, que as crianças aprendem a viver e a amar.

Nessa vivência familiar amorosa encontramos todo apoio e incentivo para realizar os grandes projetos da vida, mesmo quando estamos desanimados. É nesse ambiente acolhedor que encontramos o apoio necessário quando a crise bate à porta. No convívio com esse ambiente familiar amoroso é que os momentos de crise se transformam em condições favoráveis à realização de nossos objetivos. É com essas experiências amorosas que aprendemos que, no meio de toda crise, encontra-se a oportunidade.

São as relações iniciais da vida com nossos pais que dão as primeiras noções de nossa própria importância e determinam a forma como construímos nossa vida e nossa escala de valores. Por isso, qualquer desajuste que provoque relacionamentos confusos, ambivalentes e conflitantes no meio familiar acarretará desequilíbrio na sua estrutura, ou seja, desajuste psicossocial.

De fato, a família é essencial para dar sentido à vida e para o desenvolvimento do senso de cidadania e ética nas pessoas. É ela que dá o equilíbrio à sociedade.

Angústia crônica

Analisemos, agora, um homem aparentemente normal, no gozo da estabilidade conjugal e financeira, respeitado e admirado em seu trabalho. Avaliando nosso hipotético amigo, descobrimos que ele é um entre os milhões de anônimos portadores de angústia crônica. Por quê? De que se sente ameaçado para reagir com essa resposta instintiva ao perigo? E, se a angústia tem alguma relação com o medo, qual é a origem do temor?

Esse ajustamento aparentemente perfeito não indica que o indivíduo tenha alcançado estabilidade emocional (psíquica). Muitas vezes, o sucesso profissional, social e financeiro é conseguido por meio de artificialidade, impostura e mascaramento teatral. Em sua infância ou na fase de definição da personalidade, ele pode ter chegado inconscientemente à conclusão de que o mundo (sua família) lhe impõe exigências injustas. Querem que ele tenha determinados sentimentos, conduta e aptidões e, caso seja diferente dos padrões esperados, o pune com a retirada do amor. Em legítima defesa, ele desenvolve personalidade camuflada e caráter doentio, apesar do seu desempenho social aparentemente “perfeito”. Nesse caso, será necessário que faça concessões para evitar punição ou rejeição real dos pais, ou de outras pessoas que tenham significado afetivo para ele.

Dessa forma, ele buscará a todo custo e até o limite de suas possibilidades, ser como os outros desejam. Mas, parece que a possibilidade predomina até que se torne impossível deixar de ser ou fazer o que os demais exigem. Se ele for aceito por causa da máscara que usa, ficará com receio permanente (angústia crônica) de que a máscara possa cair. Alcançando êxito social e aceitação, congela-se a necessidade interna real de mudança de comportamento, embora isso não seja saudável. Ele parece vacilante e inconstante em todos os seus caminhos. Busca-se, então, um modo de viver que dilua a angústia, ainda que à custa dos seus valores.

Vida vazia

Não podemos nos esquecer de que o que acontece no mundo privado da criança, ou seja, nas suas relações familiares, se expressará na rua, na escola, na empresa e nas reuniões de negócios. O mundo em guerra é o reflexo do indivíduo em guerra consigo mesmo, porque não se aceita, não se valoriza, não se ama e não se respeita.

A corrupção que corrói a riqueza dos países e reduz o crescimento econômico é o espelho da falta de valores nas decisões que tomamos na família. A fome e a miséria que assolam os países é a expressão da fome de solidariedade no seio da família, da miséria relacional e existencial, do distanciamento enorme entre o ser humano e si mesmo, de suas origens e de seus princípios.

As condições conjunturais da família moderna criaram uma cultura violenta, uma sociedade vazia, um indivíduo agressivo e deprimido, que deixam um grande vazio na vida das pessoas. Essa miséria humana gera uma enorme angústia no indivíduo. E a pior miséria de todas é essa miséria afetiva familiar, que faz a pessoa mendigar carinho, implorar o amor que não vem.

O resultado é a insatisfação desesperadora, o vazio afiado, a autoausência que leva à busca desenfreada de si mesmo, ao consumismo, às explosões de violência no espaço familiar, à alienação das drogas e do prazer pelo prazer, à busca de algo que possa preencher a própria ausência.

A família é um espaço sagrado que está sendo negligenciado pela cultura moderna. Entretanto, paga-se um preço muito caro por isso. A família é o referencial mais forte e seguro que o indivíduo pode alcançar. Nela estão as diretrizes de todos os desafios e batalhas. Dela surgem as possibilidades e as impossibilidades. Esse mundo social da criança (a família) deve ser protegido, cuidado e valorizado, pois deve ser o facilitador do crescimento moral, intelectual, afetivo, social e espiritual da criança.

 


 

Fonte: Revista Vida e Saúde – Fevereiro de 2009
Imagem: Sunny Studio / Fotolia