Entre pais e filhos

POR Augusto César Maia 19/07/2016

Para as crianças, a família é a segurança, proteção, apoio, compreensão e aceitação de que tanto necessitam.

Para as crianças, a família é a segurança, proteção, apoio, compreensão e aceitação de que tanto necessitam. Pai e mãe são, com efeito, os primeiros seres vivos que a criança vê e reconhece; os primeiros com os quais ela convive. É em relação estreita com os pais que a criança experimenta e vivencia suas primeiras sensações e impressões, afeições e decepções, seus primeiros temores e esperanças.

Quando falamos dessa fase inicial da vida do ser humano, nos referimos a um período em que a necessidade de incorporar meios de sobrevivência domina suas atividades, lembrando que a primeira atitude do bebê é receber. É um período de descobertas, pois está receptivo ao que lhe é oferecido. Nessa fase, a primeira descoberta é a do movimento: a criança agita-se e movimenta os membros com evidente prazer.


Amadurecimento passo a passo

Através da maturação do sistema nervoso central e do sistema motor, a criança vai progredindo e começa a coordenar os reflexos que traz ao nascer (sugar, pegar e olhar) em ações mais complexas. Com a descoberta dos próprios movimentos, ela dá início a uma exploração do seu corpo: sorve, tateia, apalpa, aperta, observa o movimento da própria mão (aos quatro meses), alcança os pés (aos seis meses) e, com isso, descobre o espaço imediato; a princípio, ouvindo ruídos e vendo a luz (primeiras semanas). Depois, começa a acompanhar com os olhos objetos e seres em movimento. Ao ouvir barulhos, vira a cabeça.

Até os seis meses de vida, a criança é caracterizada pela absorção, que não se realiza somente pela boca, mas por todos os órgãos sensoriais. Sons, luminosidade, tato e todas as formas de contato e de estímulo sensorial a atraem. É nessa fase que o bebê aperfeiçoa os mecanismos de pressão, captura e retenção, e desenvolve disposição para adquirir, tomar e segurar.

Graças a seus gestos, surgem as primeiras mudanças significativas. Engatinhar, por volta dos nove meses; andar sozinho, em torno dos treze meses; inicia o treino do toalete aproximadamente aos dezesseis ou dezoito meses. Todos esses atos são alicerces seguros e básicos para a construção de sua maturidade.

Essa é a fase durante a qual o ser humano é mais dependente. O recém-nascido humano é totalmente indefeso e dependente dos pais para a manutenção da vida. Biologicamente, essa dependência é algo concreto e necessário. Portanto, desde os primeiros momentos de vida, deve-se assegurar ao recém-nascido o melhor ambiente possível para que todas as suas capacidades atinjam o desenvolvimento máximo.

O bebê é dotado de profunda emotividade. Ele sente intensamente. Tudo é de real importância para ele: barulho, imprevistos, cessação de um hábito, mudança de regime alimentar (desmame), tensões emocionais do relacionamento entre os pais, etc. Ele necessita de tranquilidade e segurança, para que seja formada uma base sólida de confiança na vida.

Satisfação de necessidades

Se uma criança sofrer qualquer experiência negativa que para ela seja de profundo significado emotivo, isso poderá desajustar sua estabilidade psicológica, causando assim uma estagnação no estágio de desenvolvimento em que se encontrava quando se defrontou com a situação conflituosa.

Devemos salientar que desenvolvimento não se dá sem conflitos e frustrações, pois fazem parte da dinâmica da própria vida. Entretanto, é necessário que se desenvolva no bebê um sentimento de pertencimento já nos primeiros meses de vida, pois essa é uma necessidade básica geradora de segurança.

Cumpre assinalar que a segurança necessária é mais bem alcançada através da amamentação que, além de nutrir o físico de maneira mais eficiente, suaviza o desenvolvimento emocional. O bebê amamentado ao seio tende a adquirir mais confiança e segurança na mãe, sendo que a substituição do seio pela mamadeira enfraquece muito a ligação mãe e filho.

Não podemos afirmar ao certo quanto tempo de contato com a mãe necessita o bebê a fim de evitar sentimentos de privação. Somente a criança é quem realmente sabe de suas necessidades, pois algumas precisam mais que outras. A certeza que temos é de que quase todas demonstram suas necessidades através do choro e da inquietação.

O choro de uma criança indica necessidade de atenção. Caso tal necessidade seja satisfeita no tempo certo, a criança fica saciada e com sensação de preenchimento, de realização, segurança e felicidade. No entanto, se não for satisfeita, a necessidade aumenta, podendo resultar em penosos abalos emotivos na delicada psique infantil, deixando-a desorientada, insegura e indefesa. Por isso, deixar uma criança chorando sem lhe responder por muito tempo, pode provocar nela sentimento de desespero.

Se, a “falta de ajuda” passa a ser uma prática regular, o bebê ou a criança para de chorar e desenvolve um sentimento de privação muito severo, ou seja, a necessidade passa a ser algo insaciável, pois a necessidade de ter a mãe é privada antes que as necessidades emocionais sejam supridas.

Consequências

Quando, na infância, faltar esse alimento emocional, aparecerá mais tarde, um jovem ou adulto socialmente inadequado, com frieza e insatisfação emocional, exagerada tendência em depender dos outros, incapaz de tomar decisões por si mesmo. Ou então, será tímido, acovardado e indeciso, sempre precisando ser carregado, apoiado e cuidado, excessivamente sensível e, ao mesmo tempo, egoísta e incapaz de se doar e desenvolver compaixão para com os outros.

Em outra reação extrema, o indivíduo pode demonstrar independência exagerada que, na verdade, não se sustenta em situações de tensão. Estamos diante de indivíduos que permaneceram em um estágio primitivo, em que toda a força afetiva e instintiva parece direcionada num único sentido, dominada por uma única necessidade: assegurar o amor e, através disso, manter a confiança e a segurança. Em outras palavras, eles permanecem “crianças” na psique.

A base psicológica dessa estrutura de caráter é uma fraqueza na capacidade de realização e na força de vontade. Ao se tornar adulta, essa criança não conseguirá realizar grandes esforços para alcançar o que deseja; vai preferir esperar tudo dos outros. Consequentemente, não terá muita disposição para enfrentar os desafios da vida. Por um lado, isso se deve a uma falta de vontade; por outro lado, ao medo de tentar obter o que deseja, evitando assim a temida decepção.

Toda criança merece total atenção e amor dos pais, sem os quais crescerá tendo dificuldades em aceitar ou responder ao amor. Quando esse vínculo entre pais e filhos é abalado e gera privação na condição de ser amado, consequentemente ficam comprometidos o senso de valor, a dignidade, a paz interior e a capacidade de amar.

 


 

Fonte: Revista Vida e Saúde / Jan. 2009
Imagem: Goodluz / Fotolia